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segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Algumas observações...

Eu tenho um buraco em mim, um vazio do tamanho do mundo. Que eu sinto que não se preencheu a cada vez que eu escuto a tua voz impaciente, que nunca pode falar dois minutos ao telefone. "Deu, é isso?". Eu concordo que já passamos da época de ficarmos mudos do outro lado da linha, mas eu não posso evitar. Eu sinto o buraco dizendo que está ali e que não vai embora enquanto eu não o saciar com a tua voz, as tuas palavras, quando possível com o teu cheiro, com o teu tudo... Amar é uma prisão.

Sofreremos eternamente, mas quando amamos alguém voltamos toda a nossa atenção, o nosso esforço, nossa dor imensurável, o vazio que nos acompanha às vezes, para alguém que supostamente suprirá toda essa falta que, segundo a psicologia, não abandonamos a partir do momento em que nascemos e deixamos o lar quente e confortável que era a nossa casa. Talvez eu esteja sendo muito dramática, mas é o que eu sinto. Uma fome eterna de sei lá eu o que. Que só passa quando durmo tranquila ao teu lado, quando somos um.

*

Toda essa falta que sentimos talvez explique o grande número de casais formais jovens hoje. Na época da minha mãe não era assim. Na da minha avó, era. Fui até uma ótica e um casal que parecia ter 16 anos de idade estava na minha frente. Estavam escolhendo alianças (das douradas). O rapaz ligou para a tia e pediu que comprasse com o cartão de crédito o par de alianças que ele pagava as prestações.

*

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Coincidências

Voltando a um blog abandonado às moscas...

Falar em moscas, enchi meu quarto de adesivos de borboletas coloridas. São meio bregas, mas bonitos e alegres. Coloquei entre os vãos das prateleiras e envolta de um quadro que tenho. E um adesivo de gatinho. E coloquei uma borboleta na ponta do nariz dele. Fofo.

Das peças que a vida prega na gente.

Tenho uma simpatia muito grande por pessoas idosas, ainda mais que a maior parte dos meus avôs se foram, um a cada ano e só sobrou um, que mora longe ainda por cima.

Acordei atrasada para a consulta do médico. Já que acordei atrasada, fui fazer as fotos que fiquei de fazer e cuja falta me rendeu uma desconfiança da parte da minha professora de que a matéria que redigi não era de minha autoria. Eis que desci onde deveria ser o terminal onde deveria passar o ônibus que eu precisava e fico um tempo. Quinze minutos, meia hora. Vejo um senhor de cabelos brancos, bem arrumado, de paletó, apesar de simples. Ele sobe ao ônibus, o motorista diz que não vai até o destino dele, uma mulher se atravessa na frente dele e como quem releva a falta de educação, o senhor desce as escadas e dá um tapinha nas costas dela. Ele vira de frente e eu vejo que ele tem olhos azuis. Iguais a uns que eu bem conhecia.

Demorei uns dois minutos pra tomar coragem e perguntei.

“Posso perguntar qual o nome do senhor?”

“Maia.”

“O primeiro nome?”

“Oscar.”

Era o meu tio avô, que, pelo que não me falha a memória, nunca conversei de verdade, só cumprimentei algumas vezes. Eu disse que era neta do Jesus, filha da Alba. Jesus? Acho que passou pela cabeça dele que eu fosse alguma crente ou algo do tipo. Neta do Jesus. Alvim, eu disse. Jesus Alvim. E ele se lembrou. E começamos a conversar. E eu vi nos olhos dele a mesma pessoa que dei adeus há dois anos atrás. Incrível como são as coincidências da vida, como me atrasei e parei em uma parada que devo ter parado uma vez na vida e encontrei aquele senhor. Meu tio avô estava indo ao encontro da namorada, que mora em Viamão, e que há meses não o visita nem atende o celular. Ou ela deu um pé na bunda dele ou se foi de verdade sem nem dizer adeus. Fiquei curiosa pra saber o que aconteceu. O ônibus chegou e ele foi embora. Eu virei as costas com um sorriso.

sábado, 23 de outubro de 2010

Da série "conversas roubadas"

(Atende o telefone)

Amor, tudo bem?

To no ônibus. To super cansado. Mas deixa eu te contar, a feira foi maravilhosa. Tu não tem noção. Tinha um grupo de meninas lá que acabaram se enrolando no tempo e éramos depois delas... Acabamos perdendo a competição, mas foi uma experiência muito boa. Pela primeira vez fui coordenador do grupo. E tu não vai acreditar, me ofereceram um emprego. Sabe a escola Olimpo? O dono disse que eles têm muito trabalho pela frente. Eles precisam de gente pra dar aula de robótica. Pra instalar os computadores nas escolas e dar aula... E eu pensando que ia ficar sem emprego.

Mas amor, tu não tem noção do quanto de dinheiro que rola nessa área. Eu posso ganhar muito dinheiro, vou sair do curso empregado já.

Hã? Ah amor, tu sabe o tempo que eu perco indo até a tua casa. E o combustível. É melhor eu ficar em casa, onde eu tenho meus livros, meu computador. Tenho um milhão de coisas pra fazer.

E não esquece os abacaxis, são dois. Pro suco. Não esquece.

Ah, amor... Mas dá graças a Deus que está tudo bem. Mas olha, na viagem fiquei conversando com o motorista. Que divertido que foi, tu não tem noção. O cara sabia muito. Sabia e era humilde... Não é como tipo a tua mãe. Orgulhosa, que nem sabe muito. Ele vê muito aqueles filmes da Ulbra sabe? Ele conhece várias passagens da Bíblia. Conversamos umas quatro horas, e foi muito divertido, tu não tem noção.

E sabe, vou te dizer, ele sabe muito mais que a tua mãe, e digo mais, sabe mais do que eu. O cara sabe muito.

Ah, amor, tu me liga. Eu acordei às cinco e meia da manhã. Vou cair na cama.

Sim, vou na academia.

Mas é melhor tu me ligar, eu vou acabar esquecendo.

Sim amor, te amo ta? Que Deus te abençoe, em nome de Jesus amado. Te amo. Beijo.

Risos.

Desce do ônibus.

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.
.

Aluga a namorada pra contar a VIDA dele no ônibus, por no mínimo meia hora, e não quer ir até a casa dela e não quer ligar pra ela no fim da noite. O que a gente faz com uma criatura dessas, em nome de Jesus amado?

domingo, 1 de agosto de 2010

Como um cão


Às vezes me sinto leal como um. Dependente, desprovido de vontade própria, que ouve um comando e espera até ouvir o próximo para descansar. Acho que sou muito boa em seguir ordens, talvez, quando sou ligada emocionalmente ao meu dono. Senão, sou o mais desobediente possível, se me manda ir pra esquerda, vou pra direita só de birra. Mas com o meu dono sou dócil, sou passiva, sou feita para a companhia. Me sinto triste quando ele briga comigo, abano o rabo se recebo um elogio; não sei fazer comida, espero ele me alimentar. Queria ser um leão, um pássaro colorido, uma gaivota até... Um gato, distante e impassível. Mas eu sou um cão. Fico feliz em agradar, em satisfazer quem me cuida. Sou simples. Não sei fazer rodeios, não sei ser elegante nem arrogante, nem indiferente. Meus olhos imploram por carinho, por atenção, por amor. Qualquer coisa me magoa, e qualquer sorriso me eleva às nuvens de novo. Sou fácil de machucar, fácil de alegrar.


Infelizmente, sou manipulável como um cachorrinho.


terça-feira, 1 de junho de 2010

Efemeridade

Vou até o terraço fumar um cigarro, trago, jogo a fumaça de volta pra cima e a vejo subir, subir com o vento contra o céu escuro da noite que recém caiu e me emociono vendo ela desaparecer.

Isso é estar com TPM.

Fazendo associação com fumaça e os momentos efêmeros da vida, que dançam um pouco e deixam de existir em segundos.

...

terça-feira, 25 de maio de 2010

Perigo

Onze e pouco da manhã, desci da lotação e estava indo pra casa. Como faço algumas vezes, continuei escutando música e andava com o celular na mão (burra). Avisto um rapaz de cerca de 16 anos, com uma expressão suspeita. Me apresso a enrolar os fones e guardar o celular na bolsa. Ele avança na minha direção e diz, passa o celular. E eu digo, não passo, o celular é meu. Ele disse, olha que eu to armado, mexendo no bolso. Eu vi que ele não estava armado e aparentava estar tão nervoso e apavorado quanto eu. Ele puxava o celular e eu apertava o aparelho nas mãos, não larguei. Os vizinhos viram, desceram a escada e eu gritei: ele quer me roubar. Ele saiu correndo.

Os vizinhos disseram que iam chamar a polícia, eu disse que não precisava. Segundo informações de fontes inseguras à tarde, o guri tomou uma coça da vizinhança. Espero que não seja o mesmo que me abordou.

Foi estupidez, eu sei. E se ele estivesse MESMO armado? Algo me dizia que ele não estava, talvez o medo dele. Lição aprendida, não ando mais dando sopa na rua, como costumo andar. Só espero que ele não more aqui perto e que tenha esquecido do meu rosto.

sábado, 22 de maio de 2010

Jogar para perder


Na última sexta-feira (21) acompanhei, como projeto de fotógrafa, uma operação da Polícia Civil em cojunto com o Ministério Público, representado pela Dra. Sônia Mensch, para apreender máquinas caça-níqueis. Também não acho crime jogar nas máquinas, mas para pessoas descontroladas, e tenho uma na família, o jogo nunca é saudável e nenhum dinheiro é o suficiente para apostar.

Porém, o que quero retaratar aqui é o trabalho da polícia e da promotora, e da imprensa (uma repórter da TV Record, uma da Band TV, um repórter de rádio, e uma repórter do SBT), que nos acompanhou para tentar participar de algum flagrante, em que os proprietários ainda estivessem na casa, com jogadores apostando.


As duas primeiras visitas não deram em nada, os donos já tinham ido embora, deixando apenas as "carcaças" das máquinas e levando consigo a ceduleira, onde fica depositado o dinheiro apostado.

Na última visita, uma loja de esquadrias que confeccionava imóveis de madeira, o policial foi forçado a derrubar a parede fina que escondia as salas de jogo. Um homem, argentino, foi encontrado assim que adentramos no estabelecimento, mas caçoou do policial.

P - Você é o proprietário?
A - Que proprietário, que nada...

E não quis informar como fazíamos para entrar. Eles quebraram tudo e cerca de 40 máquinas estavam no fundo do local. Duas velhinhas fugiram pelos fundos e deixaram cair dinheiro no caminho. E eis o público dessas casas de jogo: só têm idosas, aposentadas. Uma delas: "moça, por favor, não me fotografa, meu filho não pode saber que eu estou aqui". Ela não podia ser filmada, nem fotografada, claro.

na fachada

nos fundos


Eu contei pra ela que tinha uma pessoa família que jogava, mas era uma situação muito grave. Ela disse, "eu trago vinte reais e é o que aposto, mais nada. Eu sei que tem pessoas que colocam tudo fora, mas elas são assim em qualquer situação, não só no jogo". O pior é que eu concordo com ela.

Acredito de verdade que seja só um passatempo para algumas pessoas. Assim como as drogas são para outras. E não seja vício. Mas essas máquinas podem arruinar a vida de alguns poucos. Até o dinheiro que marca no monitor não é o que o caça-níquel e os bingos eletrônicos estão guardando. Aquele valor é fictício, quem deve pagar é o dono do local. E muitas vezes não pagam, quando o apostador ganha. E muitas vezes as pessoas têm as mãos atadas e não podem denunciar, porque existe a prática de tráfico de drogas dentro destes estabelecimentos. Existem criminosos de verdade e o poder de tirar a vida de alguém, se for necessário.

É uma situação bastante complexa. Não sei se tenho opinião formada quanto à legalidade destes jogos. Mas tenho certeza de que cada um dos proprietários que apenas assinaram um termo se comprometendo a ficar longe do jogo, ou que foram autuados, voltarão para esta prática, simplesmente porque é um meio de sustento. E talvez até porque a pena é muito branda.